domingo, 31 de março de 2013

Eu sou. Tu és. Nós lemos



Estava a arrumar os livros que tenho para ler. E as revistas. Os artigos digitalizados. Romances ao lado de Vanity Fairs. Algumas New York Mags que consigo que me tragam - nunca as encontro em Lisboa. A New Yorker leio no iPad. Onde faço colagens de imagens. O Gato preto andava por ali a cheirar. E abri uma revista ao calhas. Sentei-me no chão e carreguei play no deck. Comecei a ouvir Iron Maiden. O artigo era sobre retratos psicológicos com base no que se leu nos últimos 6 meses.

Levanto-me e vou até onde estão todos os outros livros. Os livros estão longe das revistas. E recordo que nunca gosto que comecem a olhar para o que tenho ali. Se julgamos os autores, podemos sempre julgar quem lê. E eu não gosto de ser julgado. Um amigo meu disse-me um dia que há livros que nunca leva à rua. E apenas os comprou quando comprou mais alguma coisa para ajudar a esconder. Como as miúdas que se vestem com a roupa da mãe quando crescem e se vêm ao espelho. Sonham um dia usar saltos altos. Mas não ainda. Ainda não os levam à rua. Mesmo quando a mãe não está a olhar.

No outro dia sai do trabalho e fui ao Grémio do Carmo. Um amigo meu entrou e viu-me. Sentou-se na minha mesa e pousou um livro e um DVD. "Mataram a Cotovia" e "My Own Idaho". Não sei como começamos a falar.Quando ele esteve em Nova Iorque foi ao Met e viu a exposição sobre Prada. Eu disse que tinha ido no ano anterior e visto a de McQueen. E gostaste? Sim. E não sei como daí continuamos a conversa. Mas acabei a contar-lhe do artigo dos leituras dos últimos 6 meses. Disse também que gostava de ir para um sitio pequeno, ao pé do mar.

Quando fui para casa nesse dia tirei da mochila o livro que estava a ler. "Kafka à Beira-mar". E na parte em que uma das personagens fica sozinho numa montanha sem água canalizada nem electricidade. Só tem como entretém livros. E fiquei a pensar que os livros podem ser de uma solidão tremenda. Liguei os auscultadores e comecei a ouvir Iron Maiden e não pensei mais nisso. Ao chegar a casa escrevi um mail a um outro amigo a contar o que tinha pensado. A resposta não demorou muito. Mas vinha só com uma pergunta: Coleccionares ténis também não pode ser de uma solidão tremenda?

sábado, 30 de março de 2013

Fez sol, o telemóvel tocou logo de manhã



Ao som de Maximo Park. Ensonado e com o Gato preto a dormir em cima dos meus pés atendi sem ver quem era. Está a fazer sol, anda. Foi o que me disseram. Anda onde, fazer o quê?, perguntei. Estou à tua porta, e desligou. Vesti umas calças de ganga e uma t-shirt. Fui até à porta de casa e era verdade. Ali estava ele. Diz que é difícil apanhar-me deste lado do rio. E queria ir pedalar. Voltei para cima, coloquei as lentes. Trouxe os wayfarer na cara e fui buscar a cyclocross que tenha na casa dos meus pais. E pedalamos.

Serra acima. Paramos para água e fotografias. Voltamos à cidade. Contornamos carros. Parámos para café. Voltamos para junto do rio.Voltámos a contornar carros. Fizemos sprints. Ganhei uns. A maior parte. Estás habituado à cidade, disse-me. Não, respondi, sou apenas melhor, disse para o provocar. Voltamos para casa.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Um café pode ajudar na diferença

Sou um pessimista. Mas um daqueles que gostava de ser optimista. Fui para Direito porque Atticus, ainda que personagem, monstrou-me que a diferença não é justificação para tudo. A verdade é que o meu sonho de um mundo melhor é difícil. Mas talvez não impossível. Principalmente quando ainda há ajuda sem rosto. Onde o gesto de simpatia para com o próximo surge nas suas mais variadas formas. Cada um ajuda como quer. Como pode. Como acha que deve ser a sua contribuição.

Mas, e nisto eu acredito muito a sério. E o que acredito já me fez perder pessoas que chamava amigos. É tão simples quanto isto: eu tive sorte no nascimento. Nasci numa família que me deu tudo o que pode e achava que eu devia ter. Talvez coisas a mais. Também é verdade. Fizeram asneira. Mas no meio de tudo tive muita, muita sorte. Porque pude estudar, tive os meus ténis, tive as minhas bicicletas, tirei o meu curso, tive o meu carro. E infelizmente há muita gente que não teve essa mesma sorte. Por isso acho que é a minha obrigação dar um pouco. Um sorriso. Um abraço.

Nesta altura, em altura de Páscoa, que terá a importância consoante o credo de cada um, podemos sempre melhorar. Porque o credo não faz ninguém melhor pessoa. Mas pequenos gestos sim.


"O café pendente"

"Entramos num pequeno café, pedimos e sentámo-nos numa mesa. Logo entram duas pessoas:
- Cinco cafés. Dois são para nós e três "pendentes".
Pagam os cinco cafés, bebem seus dois e se vão. Pergunto:
- O que são esses “cafés pendentes”?
E me dizem:
- Espera e vai ver.
Logo vêm outras pessoas. Duas garotas pedem dois cafés - pagam normalmente. Depois de um tempo, vêm três advogados e pedem sete cafés:
- Três são para nós, e quatro “pendentes”.
Pagam por sete, tomam seus três e vão embora. Depois um rapaz pede dois cafés, bebe só um, mas paga pelos dois. Estamos sentados, conversamos e olhamos, através da porta aberta, a praça iluminada pelo sol em frente à cafetaria. De repente, aparece na porta, um homem com roupas baratas e pergunta em voz baixa:
- Vocês têm algum "café pendente"?
As pessoas pagam antecipadamente o café a alguém que não pode permitir-se ao luxo de uma xícara de café quente. Deixam também nos estabelecimentos, não só o café, mas também comida. Esse costume ultrapassou as fronteiras e difundiu-se em muitas cidades de todo o mundo."

Se tens a vista, da-lhe música

O rio bate nas margens com força em dias de vento. Como hoje. O ar tem cheiro. Ao longe umas das praias. Para além da vista há uma praia que tem ondas. Estacionei o carro e vim para a rua. Enrolei-me no casaco verde. Levantei a gola e tirei umas fotografias. Portugal muda lentamente. Nestes dias questionamo-nos se ele está de facto a mudar. E esta cidade fica um pouco sempre igual a si própria. Para o bem e para o mal. Continua a ter o rio. As praias. A serra. Eça escreveu "a cidade e as serras". Esta não consta. Mas Zeca Afonso fez aqui a sua casa. De onde nasceu a música que Portugal cantou. Volto para o carro. E oiço Cohen. E vou-me embora da cidade onde cresci para a cidade que esta nos sonhos. Faço o check Out do Sado e faço o check in no Chelsea Hotel. E conduzo de volta para casa.





quinta-feira, 28 de março de 2013

DOMA

Que quer simplesmente dizer Defense Of Marriage Act. Em apreço no Supremo norte americano a possibilidade de "liberdade de casamento". Tradução liberal.

Não vou mentir: já fui contra essa liberdade. E fui por razões simplesmente assentes em construções jurídico dogmáticas e retrogradas. Mas o tempo fez-me ver um outro lado. O das pessoas que se amam independentemente do sexo, da religião ou cor da pele. Simplesmente isso: amam-se. E querem ter aquilo que é por eles de direito enquanto parte integrante da sociedade: o reconhecimento da própria sociedade na forma do casamento.

Não interessa a importância que cada um dá à ideia de casamento. Para uns é importante, para outros não. Mas a possibilidade representa um reconhecimento daquelas pessoas como iguais. Um principio da liberdade. A liberdade de amar.

Estamos longe do ideal. Muito longe. Exemplo é que sempre que toco neste tema há pessoas que me enviam mail a insultar. Não querem comentar para outros verem aquilo que pensam. Enviam-me textos carregados de violência. Carregados de ódio. E eu simplesmente tenho pena. Porque talvez nunca tenham amado.

Chovem insultos. Do que sou. Do que posso ser. Do que queria ser. Mas sou apenas alguém que defende a liberdade. Uma liberdade que eu tenho apenas pelos meus gostos. Que não percebo que  quem tem gostos diferentes dos meus não possa ter essa mesmo liberdade.


Estou em transformação



Não sei para quê. Mas de acordo com este artigo há a possibilidade. O que não se vê na imagem é uma lista de livros. Entre eles a Triologia de Nova Iorque de Auster, Shiddartha de Hesse e 2666 de Bolaño. Lidos todos com muitos gosto e prazer. Está também ali um de Saramago. Porventura o mais famoso. De acordo com o artigo trata-se de uma lista de literatura hipster. A ser verdade falta ali um para ser uma lista concisa. Everything Is Illuminated  que deu origem a um filme. Mas este tipo de catalogação é um bocado idiota. Ainda que todos façamos catalogações com base em preconceitos, são sempre catalogações genérias e injustas.
Um amigo meu apelida Murakami de um escritor pop. Diz logo de seguida que não é necessariamente mau. Para ainda de seguida dizer, como tu. Seja lá o que isso for. Mas esse mesmo amigo escreveu um artigo sobre a arrumação dos livros na Fnac. Dizia ele que não fazia sentido colocarem Oscar Wilde na zona de literatura gay e lésbica. Porque isso seria catalogar a obra pelo autor. O que seria injusto para a obra e despropositado para o autor. E que, dessa forma, teria de haver o cantinho para os autores huber masculinizados como Hemingway. Concordo com ele. 
Primeiro porque sou contra a descriminação. E depois porque a literatura não é boa ou má. É a adequada para quem lê. Para a altura em que a lê. É muito simples na verdade. Um livro pode fazer sentido numa altura da vida só naquela.  O resto são páginas com letras e histórias, opiniões e falácias. É como os blogs, na verdade. 

quarta-feira, 27 de março de 2013

Autobiografia

Deveria ser um romance. Depois passou para uma novela. Chegou a ser pensada em conto, mas vai acabar em post. Porque não sei o fim e tenho apenas fragmentos de como começou. Nasci. Há três décadas atrás. Era louro com caracóis. Foram-se os caracóis ficou o louro. O tempo também encarregou-se de levar isso. Nasci banal, cresci banal e sou banal. Joguei à bola com os putos no bairro. Era razoável. Mas muito rápido. Mesmo sendo um dos mais baixo. Hoje não sou nada disso. Tive uma bicicleta BMX cromada. Era para cima de espectacular. Ali pelos 13 anos tornei-me muito popular entre as raparigas. Era fixe. Sentia-me o maior. Depois elas começaram a apaixonar-se pelos Bad boys. Eu era apenas um puto que andava de bicicleta, lia livros e usava uns ténis bota que o meu pai me trazia de Nova Iorque. Branquinhos. Mesmo giros. Nessa altura o meu irmão já existia e tinha vontade própria e uma personalidade vincada. Mais que a minha. Era mais teimoso. Andava comigo de bicicleta. Lia os mesmos livros que eu. O que era porreiro, podíamos rodar. Anos mais tarde quando sai de casa foi lixado. Quem é que ficava com os livros? Fizemos um pacto, vamos deixa-los sempre na casa dos pais. Na biblioteca do pai. E assim lá estão eles. Um deles é “Mataram a Cotovia”. Não é o meu livro preferido mas é o que me enviou para Direito. Nesta altura era ainda mais banal. As miúdas se me ligavam ficavam caladas. E eu era tímido como um raio e não falava muito. Acho que é por esta altura que vejo as Vanity Fair da minha mãe, bem como as Vogue (a americana é a que a mãe gosta, dizia-me ela). O mundo não era a preto e branco. As miúdas e as mulheres eram lindíssimas. Depois fui para a faculdade. Mas antes de ir tive a primeira dúvida existencial. Em cima da mesa estava filosofia, turismo e direito. Ainda hoje não sei se fiz a escolha certa. Gosto de acreditar naquilo que me dizem, fiz a escolha que era a certa para mim. Então fui para a faculdade tirar Direito. Passei lá uns anos valentes. Foram uns anos bons. A primeira coisa que notei no primeiro dia de aulas é que não tinha sapatos de vela como os outros. Foi lá que escrevi a primeira vez algo que foi publicado. Foi num jornaleco no norte onde estavam a estudar uns amigos meus.  

Bem, depois acabei o curso e as coisas a partir daí tornaram-se mais confusas. Até chegar até hoje. Pelo meio, e mesmo antes de ir para a faculdade, houve várias coisas que me fazem compreender o hoje. Os movimentos a que pertenci. As causas a que aderi. As viagens que fiz. Gosto de lembrar da que me levou a Paris pela primeira vez. Apesar de não ter gostado na altura e não a ter comigo naquela vez, vi como o mundo era visto por polacos, franceses, alemães, ingleses. Todos tinham sonhos. Gostava de saber se os concretizaram. Acho que as viagens e os livros que lemos definem-nos por nós. A outra parte é pelas pessoas que conhecemos. Espero ter lido os livros certos. Uma vida não é suficiente para tudo. Infelizmente. Alguns ficar por abrir. Algumas viagens ficam apenas pensadas. E alguns sonhos terminam quando abrimos os olhos.


I don't know why I write what I write.
Bret Easton Ellis
Midnight City by M83 on Grooveshark

O meu cabelo está sempre melhor à noite

Esta é a história de um puto. Não sei o nome. Há uns anos li um artigo sobre o que fazer quando se vai a casa da miúda com que se está pela primeira vez. E o que não se deve fazer. Uma das coisas é gozar com o cabelo do irmão mais novo. Li-o talvez num café enquanto esperava. E hoje lembrei-me dele quando estava num café. À minha frente um casal de irmãos. Ela tinha gestos de carinho para com ele e ele ficava nitidamente embaraçado. Eram parecidos. Cabelos louros. O mesmo nariz. A determinada altura ela tocou-lhe no cabelo e ele afastou-se violentamente. Tudo menos aí, disse com os olhos..

Há umas semanas saí com uns amigos. Jantar e um copo. Fomos até à Lux já era perto das duas. Não chovia. Lembro-me disso porque levava os Nike Free Run. Depois de alguns cigarros na varando, em que apenas fiz companhia, viemos para dentro. Estava cheio. Como é normal. Com miúdas giras. Como é normal. Com pessoas cool. Como é normal. Com música com batida. Como é normal. Dois deles não escondiam ao que iam. Percorrem o espaço à procura de miúdas. Não sei como conseguiram ver para além de silhuetas. Restava eu e mais outro. Num espelho ou vidro vê o seu reflexo. E são gestos e mais gestos para ajeitar o cabelo. fiozinho atrás de fiozinho. O que foi? pergunta. Nada. bebo mais um golo. Afinal sempre sei a história do puto.




 Wait by M83 on Grooveshark

Desligam-se as guitarras



Depois de ouvir a primeira faixa tornou-se difícil carregar no pause. Os Discos como os livros também se escolhem pelas capas. Porque podemos fazer as nossas histórias. O que está lá dentro. Essa é umas das razões porque nunca começo logo, logo a ler um livro que tenha comprado. Gosto de o saborear primeiro na imaginação.

Angus e Júlia num primeiro plano. Um barco para um poto num segundo plano. Não vemos o porto. Mas podemos imaginar. Um porto daqueles antigos. Ainda cheio de madeira por tudo quando é sítio. Uns quantos marujos e marinheiros de barba cerradas e grossas camisolas de lã.  

“Memories of an old friend” é o título. Quem é esse velho amigo? E pode ser um amigo ou amiga dele. Um amigo ou amiga dela. Uma velha amante que artiu. Um velho amante que partiu.

Play. Finalmente vamos descobrir.


Chocolates and Cigarettes by Angus & Julia Stone on Grooveshark

terça-feira, 26 de março de 2013

E a culpa, de quem é?

The New York Post reports on Sophia Anderson who was arrested in 2012 when she "was in the car when ex-beau Daniel Sajewski drove his parents' Mercedes into the home of an elderly Long Island woman." Initially, Anderson assumed culpability because her boyfriend not only "had a criminal record and was on probation", but also because "he promised a Hamptons vacation and said he would pay for her lawyer." Which is exactly what all hipsters want—a place in the Hamptons and legal fees.
However, Anderson came to her senses and denied that she was at fault for the accident. In fact, as she and her lawyer claimed, the real problem was not even the boyfriend. The real problem was her "hipster lifestyle" and "the allure of Brooklyn."

(Des)Vantagens do almoço ser em casa

A primeira regra de almoçar em casa é não nos descalçarmos. Detesto andar calçado em casa. Mas tem de ser. Descalçar é chamar o ócio. E pensar no sofá com as pernas em cima do repousa pés. O livro ao lado. E depois a tarde corre longa. Mas descalçar e libertar do ócio tem vantagens. A lasanha vegetariana é caseira. Uma das especialidade. Depois posso sempre ver o Gato Preto continuar entusiasmada com os pombos que voam livres lá fora. O Gato Preto podia chamar-se Salinger. Porque vive recluso cá em casa. Talvez não por vontade própria. Mas há um receio do que lhe possa acontecer lá fora. Nesta Lisboa movimentada. O que outros gatos habituados às ruas lhe possam fazer. Uma outra das regras é não olhar para os ténis. Não posso olhar para os New Balance, Nike Free Run, Vans Old School, Air Jordan, Converse. Fico com pena de não os poder calçar. Depois de almoçar ajeito o cabelo no espelho de entrada. Componho a gravata de lã e o pin. Componho o lenço na lapela e pareço um dandy. Sorrio e aquela imagem desaparece. Afinal era só a capa da GQ que estava a fazer reflexo. Olho para a cómoda e vejo uns quantos convites que ela deve ter deixado ali em cima da mesa. Cinema, after work cocktails e outros que vamos ignorar. Vejo que a Kinfolk está ali. Não sabia que a tínhamos aqui. Olho para o relógio prateado que foi do meu avó, depois do meu pai e que agora é meu que estou atrasado. Esta é uma das desvantagens de almoçar em casa. O tempo é sempre curto.  


Tisci is a Hipster



Não sei se é. Não me interessa, em todo o caso o que é. Desenha roupas. Usa padrões e imagens de outros imaginários. O que é curioso essa metamorfose. Há uns anos um tipo num liceu foi com a sua turma de religião e moral a Lurdes. Foram várias horas num autocarro para visitar um santuário. Acredita quem quer, desdenha quem quiser. Comprou uma t-shirt com a imagem da Virgem Maria. O Algodão não era o melhor. O corte não era o ideal. Mas era um t-shirt com uma imagem. Religiosa para o caso. Quando voltou à escola foi gozado. Chamado beato. Quando o que lhe deveriam chamar era visionário. Tenho as minhas dúvidas se esse tipo era Tisci. Podemos tentar imaginá-lo sem bigode.

Em Setembro quando fui a Londres almocei em Convent Garden. Um dos meus sítios preferidos naquela cidade. Posso facilmente fazer um top 3, mas esse é um deles. Na mesa ao meu lado um tipo de cabelo rapado nos lado e um grande poupa almoçava com uma miúda gira. Muito gira. Morena de cabelo ondulado. Tinha os olhos pintados de negro. Mas sem exageros. Não sei, mas tenho também o estranho hábito de reparar nas mãos das pessoas. E as minhas não são umas mãos bonitas. Isto para dizer que tanto ele como ela usavam anéis. São coisas que não gosto. Neles. Mas ele tinha um t-shirt Givenchy com a Virgem Maria também. Será que também foi a Lurdes? Não sei. Nem me interessa. Talvez nem acredita. Mas hoje é cool. A moda a construir os seus dogmas.   

segunda-feira, 25 de março de 2013

Conversas sobre ontem

- Conhecias o meu avô?

- Tenho pena. Sim, conhecia. Ajudou-me a arranjar a minha mota. Um Casal velhinha que comprei no ferro velho. A minha irmã às vezes vinha-lhe entregar um bolo.

- Vives com a tua irmã?

- Sim. Mais a minha mãe.

- Desculpa se não me recordo de ti.

- Não faz mal. Vais ficar cá por muito tempo?

- Sim. Mudei-me para cá.

- Sério? Tanta gente a querer fazer o contrário. Eu um dia quero ir para Lisboa. A minha irmã não se importa de cá ficar. Ela gosta disto.

- Tu não gostas?

- Gosto. Mas quero ir para a faculdade e depois ficar lá a trabalhar.

- Quantos anos tens?

- Tenho 15.

- Mas não vais ter saudades disso? Aponto-lhe para a prancha.

- Ah, vocês também têm praias lá em cima. Também fazes?

- Não, não. Nunca fiz. Não tenho jeito.

- Não é uma questão de jeito, mas de querer.

- O querer às vezes não é tudo.

- Quantos anos tens?

- Porquê? Perguntei confuso.

- Porque estás a falar como um velho.

Vou insultar muita gente. É de propósito!

Há pessoas que gostam muitos dos seus animais. Dos cães. Dos gatos. E até das tartarugas. Quando morrem escrevem no Facebook RIP com uma imagem do falecido. Normalmente são fotografias bonitas. Mas a seguir vão comprar um bilhete para a tourada e dizem que é tradição e cultura.

Não consigo conceber uma tradição e uma cultura onde se faça sofrer um ser vivo. Tal como não consigo conceber ou perceber o fundamento para julgar dois homens diferentes baseando-se apenas na cor. No credo. No que gostam de fazer na intimidade. Se quem julga a diferença entre o homem é estupido e ignorante. Quem julga o animal pela sua diferença também é estupido e ignorante. Mas pior, é um hipócrita!

O touro é um animal como os cães, os gatos e as tartarugas que se tem em casa. Sofre e tem sentimentos. Sim, sentimentos. Os cães ficam contentes quando vêm o dono. Assustados em várias situações. Principalmente quando vão à rua em pequeninos. É muito movimento para eles. Ruido. Com os Gatos o mesmo. As Tartarugas escondem-se na carapaça. Os touros investem. Mas aí todos se levantam nas bancadas em gaudio. Mas em casa percebem quando o cão esta triste. Quando o gato esta com medo. Mas ali são bárbaros a vibrarem com o sofrimento.

Não sou dos que acham que os animais têm direitos. Sou dos que acha que os animais são objecto de direitos. Não sou dos que acho que têm direitos devido a uma construção jurídica: tem direitos quem tem deveres. E os animais não podem ter deveres para connosco. Está para lá da sua esfera de compreensão. Mas não os podemos julgar porque nós muitas vezes não compreendemos a nossa realidade. Mas acho que todos andamos cá ao mesmo, a tentar sobreviver da melhor forma.

O touro sofre. Se não for fisicamente, o que tenho muitas dúvidas, é psicologicamente. Na primária todos fomos gozados em determinada altura. A turma inteira a gozar connosco. Por motivos estúpidos, muitas das vezes. Como é que se sentiram? Agora imaginem que estão numa arena. E além de gozarem convosco ainda vos vão espetar merdas nas costas. Talvez naquele momento não sintam nada. Mas mais tarde vão sofrer. Afinal, aquilo que escorre nas costas é sangue.

Não acho que o mundo deva virar vegetariano. Isso é com cada um o que leva à boca. Mas se acham que é legitimo comer boi ou vaca, no outro lado do mundo é legítimo comer cão e gato. É tudo uma questão de perspectiva. O homem precisa de comer. Precisa de se alimentar. Mas não precisa de fazer sofrer. Não precisa de vibrar com o sofrimentos dos mais fracos. Não façam aos touros aquilo que não gostavam que fizessem aos vossos gatos e cães.

Se gostam de cães e gatos, lhes dão banhinho, boas comidas, fazem festas, tratam-nos bem, mas depois vão à tourada, lamento. São ESTUPIDOS!


Se tourada é cultura, canibalismo é gastronomia
Maestro Vitorino de Almeida

Sempre me aborreci rapidamente





E tudo começou quando era criança. Criança, criança. Quis ir para a ginástica. Fartei-me. Depois quis ir para o Judo. Depois disso seguiu-se novamente a ginástica, mas desta vez de trampolim (cheguei a ir a competições). Depois houve aulas de guitarra. Ainda houve taekwondo. O futebol só foi abandonado por uma lesão, para alegria dos meus pais. Na faculdade era o primeiro a acabar os exames só porque me aborrecia de estar lá dentro. Escrevia o que sabia e vinha-me embora. Os outros ficavam lá a escrever folhas e folhas para parecerem muito inteligente e sabedores. E no final, agora adulto, fica que me aborreço facilmente. Prefiro aborrecer-me a ser um desistente. Mas bem vistas as coisas pode ser o mesmo. E aborreço-me do que escrevo. Talvez por isso projectos com ambições maiores que a minha própria ideia se vejam a meio da viagem convertidos em contos. E alguns deles abandonados porque me aborreço do que estou a escrever. Um género de, desapaixonei-me do que escrevo. Ou na melhor das realidades: aborreci-me.

 The bourgeois prefers comfort to pleasure, convenience to liberty, and a pleasant temperature to the deathly inner consuming fire. 
Hermann Hesse


Brooklyn by Woodkid on Grooveshark

domingo, 24 de março de 2013

Diz-me se queres ir a Brooklyn



Coney Island com a sua praia. E os parques temáticos. Porque é que me lembro disso hoje? Porque hoje fez sol. Li um bocado. Li a revista que tenho ali. Li mais uns capítulos do livro também. Fiz uma lasanha vegetariana. Daquelas bens boas. Ah, e fui correr ao final do dia. Desta vez não corri no parque. Corri pelas ruas. E de dia. Com o sol ainda lá em cima. E sabes o que ouvia? Woodkid com Brooklyn. Talvez venha é daí. Diz-me se queres ir a Brooklyn. Vamos no final do ano? Passamos lá o ano novo. Numa Townhouse com história. Talvez tenha lá vivido um escritor famoso. Depois vamos até Manhattan de bicicleta. Passamos pelas lojas onde fazem compotas com frutos orgânicos. Acho que vou gostar. Já lá estive. Sabes não sabes' Claro que sabes, estavas comigo. Ficamos sentados ao lado um do outro a ver uns tipos a jogar basketball. E jogavam bem. Gostava de ser mais alto. Assim, tão alto quanto eles. Talvez eles fazem coma bola nas mãos o que eu um dia consegui fazer com a bola nos pés. Agora lembrei-me do filme "Finding Forrester". Acho que vou ver. Mas primeiro vou comer qualquer coisa. A Lasanha que fiz e que está bem boa. E ainda não a provei. 



I'm no Lance Armstrong, but I do use a bike to get from place to place in Manhattan, a little bit of Brooklyn.
David Byrne 



Brooklyn by Woodkid on Grooveshark

sábado, 23 de março de 2013

Anatomia de um Sábado







A que horas toca o despertador a um sábado? À hora que não existe. Qual a música que toca logo pela manhã num sábado? Aquela que faz parar a chuva. Porque levantei a coberta e abri a janela para deixar de chover naquele momento. Um capucciono na mesa castanho wengue com o Gato preto a dormitar ao meu lado com a cabeça em cima do braço. Em cima o jornal do dia e a revista do mês. Uns artigos depois e a chávena vazia é tempo de utilizar o sol. O vidro do carro desce. A bicicleta fica em casa. o Rio, Belém, Jardim Botánico. Ela e o test drive de uma máquina que se tem de conhecer.

Não temos assim tanto a cultura dos parques. É verdade, e tudo porque somos uns privilegiados, irónico, não é? Porque temos quase sempre sol e mar? Sim, por isso. E assim podes pedalar quase sempre que queres. Sim, é verdade. Já escolheste a tua música para Itália? Não, mas já escolhi o livro! Ah, já?

Sim, é verdade. Normalmente é ao contrário. Primeiro uma música e depois um livro. Mas não desta vez. "Um Gentleman na Ásia" de Somerset Maughan. O meu escritor preferido. Gostava de ter um pouco do seu jeito. Gostava de ter um bocadinho daquela forma de ser personagem ausente e narrador metediço. 


Imagination grows by exercise, and contrary to common belief, is more powerful in the mature than in the young
Somerset Maughan
Big Jet Plane by Angus and Julia Stone on Grooveshark

sexta-feira, 22 de março de 2013

Quero fazer o meu discurso de agradecimento

Já ganhei dois prémios nas duas vezes que concorri. E são o mais parecido que tenho de prémios literários. Concorri com duas frases. Não foi com contos, novelas ou romances. Foram mesmo frases. Sobre nada em concreto. Escritas na forma com que escrevo. E pronto. Ganhei. O prémio não é monetário. Não é uma viagem. É um bilhete duplo para o cinema. Terça lá vou ao Corte Inglês. Quero agradecer à Time Out pelos bilhetes e a ela por dizer que um dia ia chegar longe. É que da minha casa ao cinema ainda são umas quantas estacões de metro.

O que diz Lisboa

No outro dia, ao almoço, entrei na cidade. Lisboa tem desenhos nas suas paredes. Como pequenas tatuagens como vi naquela miúda que fumava um cigarro. Encostada a uma parede que dizia “Dantes escrevia para a Márcia, agora escrevo para a Nike” mostrava a tatuagem que tinha no peito. Indiferente ao frio da Primavera recente. Indiferente ao decote revelador que tinha.

 

Quando abri o blog pensei num endereço. E depois num título. Pensei juntar as duas coisas. Mas havia só o querer abrir a porra do blog. Fazia lá eu ideia de um título jeitoso. Há pessoas que conheço que são enormemente mais criativas que eu nesse sentido. Como escolher uma frase. Apenas e só uma frase que faça sentido. Acho que o mesmo se passa com as tatuagens. Se bem que neste caso não exista um botão de delete.

 

Fiquei sentado num banco de pedra a olhar para a miúda enquanto terminava o seu cigarro. Pensei pegar na Nikon e tirar um fotografia. Porque ela era cool. E era gira. E a tatuagem tinha umas cores engraçadas e mesmo ao lado – mesmo, mesmo - a frase: “Dantes escrevia para a Márcia, agora escrevo para a Nike”. Acho que ficava giro numa fotografia. Ela apagou o cigarro e foi-se embora. E eu fiquei ali sentado.



quinta-feira, 21 de março de 2013

Grande Alface vai apanhar o Comboio à meia noite


Lembrei-me do título quando estava a correr. Gosto de correr à noite. Corro por ruas de Lisboa. Sou uma mancha. Sou invisível. Sou mais um corpo que se move. Desta vez à corrida. Mas o título era para o novo de Jeremy Irons cuja acção se passa em Lisboa. Uma Lisboa, dizem – eles, os críticos – melancólica e com charme. Mas como ainda não vi o filme, não sei.

Desde há uns dias – acho que correcto seria dizer semanas, desde uma certa conversa com ela – me debato sobre a importância do conto como género. Eu não sou o maior adepto. Ainda que todos os meus projectos acabem por se tornar contos. Todos maus. Todos não publicados. Todos com ambições de serem algo que nunca foram. Acho que já são uns quantos. Talvez juntos formem algo jeitoso. Mas em Portugal não se publica contos. Em Portugal não existe um Carver. Que se dane, não existe um Carver em mais lado nenhum.

Quando cheguei a casa sentei-me ao computador e levantei-me logo de seguida. Fui buscar os dois livros de contos que tenho. Três, se contar com Última Saída para Brooklyn (e este claramente não foi pensado para ser conto, as partes tocam-se para fazer um todo). O Gato preto sentou-se na mesa em frente a olhar para mim. Não sei o que esperava conseguir. Se queria ter uma epifania. A verdade é que passados uns minutos me levantei e fui tomar banho.

A impulsividade é uma coisa lixada.



Há quem a consiga dominar e quem consiga ser-lhe indiferente. Nunca foi o meu caso. Sempre fui um tipo impulsivo. Nunca pensei muito nas consequências. De certa forma as coisas foram-me correndo bem. Um ou outro percalço, nada de mais. Mas foi deixando marcas. Foi construindo os anos com a sua influência sobre as minhas decisões abrutas. Pelo menos era o que todos pensavam. Menos para mim, faziam-me sentido. Desde a escola e escolha de cursos, com as miúdas e ou a escolha de uma carreira. Há uns anos li um livro, "Blink", devia tê-lo lido mais cedo, teria explicado muita coisa. 

Creio em Deus e sou deus, mesmo quando vivo em Lisboa

Li hoje um poema. Um poema pequenino. De um génio. Um dos maiores. Um que foi tocado por Deus tornando-se um deus. Li quando ouvia Iron de Wookdik do CD Golden Age.

 

 

Deus

 

Às vezes sou o Deus que trago em mim

E então eu sou o Deus e o crente e a prece

E a imagem de marfim

Em que esse deus se esquece.

 

Às vezes não sou mais do que um ateu

Desse deus meu que eu sou quando me exalto.

Olho em mim todo um céu

E é um mero oco céu alto.

 

Fernado Pessoa

Tenho um amigo artista. Pinta quadros. Utiliza cores.

- O que dizes? Apenas preciso de um sim ou não.

Olhei todos os outros quadros. Objectos que não reconhecia. Mulheres que nunca tinha visto. Nós no café de sempre. Pintado de memória porque ele estava ali no quadro também. Sim ou não? Não queres um comentário, ou um porquê? Não, disse-me.

- No fim último, um impacto no homem comum. Gostar por gostar sem qualquer fundamento. Um prazer inato pelo que é criado. Gerar sentimentos e não razões. Gerar afectos e não justificações. Ou gostas, ou não gostas. Ou sim, ou não.

- Sim.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Viagens na minha terra



Não fui de Lisboa a Santarém. Fui de Lisboa a Aveiro. Abandonei a Rua Garrett e às oito da manhã entrei para o comboio em Santa Apolónia. Levava na mochila um livro, o iPad e a máquina fotográfica. Levava também um caderno e uma caneta e um guarda-chuva pequenino. Levava umas botas calçadas em vez dos ténis. Sentei-me no meu lugar e esperei que o comboio começasse a andar. 

Já andei várias vezes no Alfa com destino ao Porto. Desta vez saio antes. Na minha carruagem várias pessoas. Alguns conhecidos da televisão. Mulheres executivas. Homens de negócios. Oferecem-me um café ainda antes de Santarém. Tenho direito a um jornal ou revista. Quero o Público, se faz favor. Acabei de ler antes de Coimbra. Tirei o iPad da mochila para ouvir The XX e tentar ver um episódio de uma série. Não me consegui concentrar. Tirei o livro e tentei ler. Não me consegui concentrar. Fui a olhar pela janela. Portugal é diferente dentro de uma carruagem de comboio. É menos cosmopolita. É o portugal de Almeida alguns anos depois, mas a mesma paisagem. Em Coimbra não sai ninguém. Falta uma estação. 

Em Aveiro sou o único a sair da minha carruagem. Está frio. Muito frio. Chovisca um bocado. Reparo em muitas bicicletas. Algumas muito bonitas. Passa por mim uma velhinha com uma pasteleira antiga. Eu caminho debaixo do guarda-chuva. Invejo quem passa por mim a pedalar. Entro num café. Ligo ao meu pai e desejo-lhe um feliz dia do pai. Onde estás? Pergunta-me ele. Em Aveiro, respondo. Despedimo-nos passados um bocado. 

Volto para a rua e para debaixo do guarda-chuva. Lembro-me que tenho de comprar ovos moles. Começa a chover torrencialmente quando estava ao pé dos canais. Entro no primeiro sitio onde me posso abrigar. tem internet wi-fi. Peço mais um café e sento-me à mesa com o iPad à frente. Tiro a máquina fotográfica porque quero tirar uma fotografia aos canais. Merda, não tem bateria. Quando já não chove volto à rua. Continua a estar frio. Continua a passar pessoas de bicicletas. Gosto de Aveiro e só cá estou à uma hora.

Vou contar um segredo



É possivelmente o disco do ano. Não há muito a saber. Neste caso a ouvir. Mesmo o que ainda vem para aí. Deve ser lixado quando se tem um disco planeado para o Verão e alguém edita em Março algo melhor. Deve ser mais ou menos o que sinto quando leio alguma coisa escrita bem melhor do que cheguei a pensar. Ainda bem que há poucos como eu. Pelo menos é o que ela diz.

O disco, é deste ano, a música em cima, do ano passado. No intervalo de fazer música Woodkid - que não se chama assim -  faz videoclips. Como os que fez para Lana Del Rey, Born to Die e Blue Jeans. O ano passado por esta altura andava a ouvir Lana del Rey. Este ano ando a ouvir quem lhe fez os vídeos. Sou coerente.

  

Fininha melancolia




A primeira vez que ouvi a expressão foi numa das crónicas de Lobo Antunes. Levava-a no Iphone quando estava a correr quando ele, com a sua própria voz diz: fininha melancolia. Não me recordo da crónica em si. Mas a expressão ficou. De tempos a tempos vem-me à memória, fininha melancolia. É uma expressão doce. Também triste.

No outro dia quando vi pela primeira vez Paperman lembrei-me dela novamente. O pequeno filme de animação só tem cerca de 6 minutos. Já o vi mil vezes depois. E a expressão acompanha-me sempre que o vejo. E o filme é um dos mais bonitos dos últimos tempos.

O amor a preto e branco. Em Manhattan a meio do século passado. E começa com a fininha melancolia quando ele está à espera do comboio.

A melancolia começou por ser entendida como uma doença. Séculos depois Freud diz que é um luto.  Um fininho luto. Duas palavras juntas que não fazem muito sentido como fininha melancolia.

Lobo Antunes descreveu-a. Paperman faz-me lembra-la pela cena inicial. Cohen canta-a. Albrecht pintou-a. Essa magana, a fininha melancolia.

terça-feira, 19 de março de 2013

Era uma vez


A história de um gato. Nasceu sem qualquer controlo sobre onde iria nascer e quem seria a sua mãe. Nasceu com mais irmãos. Era o único preto. Não sei se foi colocado de lado por ser diferente. Acho que os animais não ligam a isso. Juntamente com todos os irmãos foi colocado num caixote e abandonado numa obra. Fraco e com fome deixou-se ficar encostado aos irmãos. No outro dia quando chegaram os trabalhadores encontraram o caixote. Ao abrirem viram o que tinha lá dentro. Sem saberem o que fazer foram chamar o encarregado. Um foi comprar um pacote de leite. O encarregado ligou para casa e disse para a mulher "vou enviar-te uma fotografia com uns gatinhos num caixote. Estavam aqui na obra". A mulher foi para o computador e esperou o e-mail. Quando a fotografia chegou abriu o Facebook e colocou a imagem. Desligou o computador e ligou para um amigo. "olha, encontraram lá na obra um caixote com gatinhos abandonados. Conheces alguém que esteja interessado?" Minutos depois o meu telefone tocou. "Olha, quando partes para Nova Iorque? Amanhã, porquê? Quando chegares queres ir buscar um gatinho?, foram abandonados numa obra, vou enviar-te uma foto para veres." Duas semanas depois, já em Lisboa, fui buscar o Gato Preto. Há dois anos que está cá em casa. Depois de ter nascido e abandonado numa obra está vivo.

Esta é a história deste Gato Preto. 

Um dia ele quis ser astronauta, mas acabou por ser meu pai





Não sei qual é a memória mais antiga que tenho do meu pai. Elas misturam-se de tal forma que não sei o que é real ou imaginado. Acho que me consigo lembrar quando me levava no colo para o infantário. Consigo lembrar-me dele a ensinar-me a andar de bicicleta no jardim ao pé de casa. Lembro-me de o levar ao aeroporto. Lembro-me de aprender com ele a gostar de The Doors.


Posso dizer que o meu pai é o meu herói. Mas é mentira. O meu pai é o meu pai. Um herói não estaria a altura dele. É apenas um homem que tentou fazer o melhor que soube para me educar. E depois voltou a tentar e fazer ainda melhor com o meu irmão. O meu pai é, acima de tudo um homem bom. E isso é tudo o que eu preciso. Porque foi com ele que aprendi que havia bondade. Foi por ele que acreditei que era possível mudar o mundo.


Pai, estávamos enganados. Mas tu continuaste um bom homem. Como o consegues? Continuas a ter o abraço quente e forte. Continuas a ser mais do que julgas que és. Continuas a ser tudo o que eu um dia quis ser. Nunca vou ser melhor que tu. Nem quero tentar. Porque sei que vou falhar assim que tentar.


Neste dia, Liguei-lhe. Depois mandei-lhe uma sms a dizer que tinha um e-mail. Uma pequena história inspirada nele e na minha mãe. Aqui.

Ali, no Sena, em Paris



A primeira vez que vi Paris tinha 13 anos. E foi mesmo ver pela primeira vez. Viajava de carro. Tinha dormido durante um bocado enrolado no banco de trás. Acordei e estava ao pé da Torre Eifel. E assim vi Paris pela primeira vez.


Quando preciso recordar a esse momento é muito simples. Não sei se as coisas aconteceram mesmo assim ou não. Mas já não é importante. Tinha umas calças de ganga azuis e um t-shir branca e uns nike sujos nos pés. Sai do carro e olhei para a Torre. Estava no meio de um parque de gravilha, é assim que me lembro. Coloquei as mãos à frente dos olhos a fazer de pala e olhei para cima. Era bem cedo de manhã, ainda não havia qualquer fila para os bilhetes. E depois subi até lá acima.


Depois, houve mais Paris. Anos depois.

segunda-feira, 18 de março de 2013

Quando for grande



Quando ganhar bem compro um Moleskine e todos os livros que ainda não tenho. Vão se juntar a todos os que tenho. Aos que já li e aos que não li. A parte do Moleskine é simplesmente porque acho piada. Escrevo à mão apenas quando tomo notas no trabalho ou estou ao computador. No resto do tempo utilizo o iPhone. Tiro fotografias, tiro notas, faço listas. Depois de tempos a tempos ando a limpar tudo. Como ontem. E aproveitei para organizar as fotos todas. E apagar muitas, também.

Deixa ser criança e cresce um bocadinho, pode ser?



Porque continuo a fazer caretas ao jantar.  O meu irmão está farto que meta com ele por causa da sua namorada nova. Como se eu fosse o mais novo e ele o que tenta ser adulto e cool. Depois de almoçarmos ele ficou por casa. Eu estava no quintal de roda da minha bicicleta antiga. Ele via-me pela janela. Chamou-me carinhosamente, estúpido  queres ir dar uma volta? Pode ser, parvo. Gritei de volta. E com umas bicicletas antigas  mas muito cool andamos à volta pelo bairro onde crescemos. Estava sol, o que foi bom. Passamos por putos a sério. Não por pessoas como nós que fingem ser putos. Vou falar do meu irmão. O que para mim será eterno puto. Tem uma barba grande. Já teve cabelo cumprido. Agora é só barba. É um puto cool. Apesar do andar estúpido que tem. Tem muito mais força que eu. E não tem medo. Faz coisas na bicicleta que eu não faço porque não tem medo de cair.

Acho que já te perguntei



Mas não me lembro da resposta. Gostas mais de ler quando o narrador é personagem ou é exterior à acção? Achas que pode ter com o próprio autor? Achas que quando o autor é personagem ou conta algo do ponto de vista exterior influência? Tenho sempre esta dúvida quando a folha está em branco. Aqui sou eu. No word posso ser outra pessoa. Mas gostava de saber a tua opinião. Não percebo porque ficas assim quando falo contigo sobre isto. Mas mesmo que fiques não me vai impedir de continuar, sabes disso, não sabes?

domingo, 17 de março de 2013

Bonjour Tristesse, até depois, Berlim fica com o edifício



Berlim. Naquela cidade destruída por bombas e exércitos os edifícios contam a sua história. Julgo que não seja muito diferente de outras cidades. Mas Berlim, nestes anos depois de 2008 lança a sua influência  Como uma pequena vingança depois do castigos que lhe foram impostos no final da II Grande Guerra. Neste mundo, quem tem dinheiro manda. E os Alemães, depois das contas saldadas, voltaram a sentar-se à mesa.

Ele desenha abrigos. Edifícios de cimentos e tijolo e uma outra enormidade de materiais. E um deles é em Berlim. E ele é português. Foi pago com o mesmo poder económico para quem agora o país estende a mão. Entre 1980 e 1984 Siza trabalha em Berlim para construir o edifício Bonjour Tristesse. 

Não sei a ligação do Edifício ao Livro de Françoise Sagan. Mas acho que é um titulo bonito. quer para um livro quer para um edifício. Naquele edifício passam pessoas. Entram e saem. E como que a tristeza é abandonada cada vez que se passa a porta. Naquelas divisões não há tristeza que resista.

Desenha Siza para ele e para algumas pessoas  cuja aceitação é importante? Tal como Françoise que defendia que só se escreve para meia dúzia de pessoas. Siza é maior que Françoise. Em áreas distintas. Siza é português. Françoise era francesa. E um edifício com o nome de um livro está em Berlim, Alemanha. Mais que o Homem, a cultura é uma cidadã do mundo. E é giro, isto.

Porque é isto que quero quando viajo. Ver arte que não tenho cá. Foi isso que me fez entrar no MoMa. No Met. No Dorsay. No Louvre. No British. Nas casas de Gaudi. Entre outros. 

Mas também quero a aceitação de uns quantos. Mesmo que seja a jogar à bola. Faço truques e dribles. Marcos golos de chapéu para os meus amigos verem como sou fixe com a bola nos pés. Talvez melhor do que cozinheiro de pratos vegetarianos. 




A Tashen dedica um livro a Siza. 1952 a 2013. A história não é só feita de músicas, de quadros, de roupa e decisões políticas. Mas também de edifícios. E o engraçado é que muitos edifícios pode ter por detrás decisões de influências de outras áreas. Desde logo porque, em princípio, nenhum edifício nasce sem ser numa área onde seja possível a construção. E essa decisão é, ou deveria ser um decisão política. Mas bem sabemos onde andam as actuais decisões políticas.

Os blogs, as leitoras, a tradição

Camilo, Herculano e Garrett publicaram muita da sua ficção em folhetim nas revistas literárias. Hoje essa tradição quase não existe. Porque quase não existe revistas literárias de circulação aceitável. A Ler não tem contos. Existem, em alguns jornais e revistas de jornais, crónicas "aficcionadas", mas na génese são crónicas.

Os blogs são o local da ficção actual. Personagens e personas a partir da pessoa que martela as teclas. E hoje, como dantes, o leitor é a leitora. Camilo, Herculano e Garrett sabiam disso. Varias vezes escreveram: "as minhas leitoras".

(Fun fact, a maioria dos consumidores de ficção são mulheres. A mulher lê em media dois livros a mais que o homem)

Aqui não existe um romance. Historietas, por vezes. Partes de algum conto. Ou será, talvez mais apropriado - conhecida a definição recentemente -, um "fragmentário".

O que é um conto? Uma história curta que se lê bem e rápido. Poucas personagens, um espaço/tempo curto. Figura menor da produção literária? Um romance envolve tempo, dedicação, e a pessoa que o começou pode ser diferente da pessoa que o pode acabar.

Californication season 6: Becca apresenta o seu primeiro romance para notas a Hank. Naquela idade apresenta já um romance terminado. Bom, mau, não interessa. Esta terminado. Representa um importante passo.

O conto é o EP. O romance o CD. As editores, de um lado ou doutro, escolhem em quem apostam. Um romance, um CD, representa que alguém exterior esta disposto a apostar dinheiro no que se faz. Mas os contos são bons. Por vezes são publicados. Os EP's por vezes são geniais. Por vezes são editados.

(Fun fact, em Portugal somente Miguel S. Tavares, Margarida R. Ponto, António L. Antunes e - agora - Pilar (e a fundação Saramago) podem viver - bem - do número de livros que vendem. Uma geração mais nova vive bem do que escreve. Em crónicas, em jornais, em revistas, em Livros. E a produção tem de ser missiva. E muitas vezes tem um outro trabalho paralelo)









sábado, 16 de março de 2013

Uma mulher bonita


Discutimos muitas vezes sobre a beleza. O que é uma mulher bonita. Há algumas que chegamos a acordo. Noutras vezes, nem tanto. Numa coisa, normalmente, estamos de acordo, a morenas são mais apelativas. Talvez assim se consiga uma ligação aos filmes indie e franceses. Excepção seja feita a Sofia. Mas nunca me lembro de termos falado de Kate. A primeira vez que vi Kate era um puto com borbulhas quando fui ao cinema ver um filme que dispensava conhecer. E digo dispensar porque hoje não é um filme cool, digo dispensar porque de facto não gostei nada do filme. E meço a minha capacidade de gostar de um filme pela quantidade de vezes que o vi. E este só vi uma vez. Mas foi aí. Depois vi Kate várias vezes. E hoje vi esta fotografia. Gostei logo. Principalmente porque é a preto e branco. E ultimamente ando fascinado com o preto e branco. Ela gosta mais de cores. Ela diz-me muitas vezes para fotografar a cores e depois logo editar. Mas acho que assim estou a aldrabar. Principalmente porque as fotografias já são digitais. E aqui temos, uma mulher bonite: Kate. E loura. E ainda sem saber a opinião dela.

sexta-feira, 15 de março de 2013

Anatomia de uma barba


Vou deixar crescê-la. Mas porque a queres deixar crescer? Porque me apetece, já tentei várias vezes. Pois já, e sempre a deixaste a meio. É verdade! Não acredito que deixes muito tempo, até porque acho que fica feia, assim grande.
 
 
Assim vai existir mais uma tentativa. Que acredito que sairá frustrada, como das outras vezes. Como incentivo todos os dias tiro uma fotografia com o instangram. Irei documentar mais um pequeno projecto. Como todos os projectos vai nascer pequeno. Mas o falhanço será grande. Liguei-lhe à hora de almoço e contei deste documentário que estou a fazer.
 
 
Como aqueles pequenos vídeos que fizeste, sobre NYC e Paris? Sim, sim. E o de Paris já está feito? Sim, Sim. E já o publicaste? Não, Não. Porquê? Não sei.
 
 
Como a barba poderia fotografar cada página que escrevo. Um documentário como se escreve um conto. Faltava apenas saber como é que eu percebo disso. Mas podia tentar. Foi uma ideia que me deram. Mas não sei qual o conto que quero escrever.
 
 
O que fizeste durante o almoço? Almocei. Hahaha, engraçado. Comprei comida e comi na rua, no Largo de São Carlos. Sozinho e com frio. Depois fui à Fnac e comprei o Cd de Dead Combo e passei a tarde a ouvir. Gostas mesmo de músicas tristes. Sim, acho que são bonitas. E de filmes franceses? Também, sabes que sim.
 

Ainda bem que é sexta


 
 


E vi este video. Porque vou deixar a cidade. Não sei se vai estar bom tempo. Mas para onde vou ter pranchas e bicicletas à minha disposição. E amigos, daqueles como eu, que não querem crescer e odeiam andar de fato. Pelo menos é o que todos dizemos, mas por trás todos queremos ter pinta com um Thom Browne suit. Mas o que gostamos é de pranchas retro e bicicletas de uma só mudança. Não tens idade para isso. Dizem-me constantemente. Mas não quero saber. É sexta e vou sair da cidade.

quinta-feira, 14 de março de 2013

Esse olhar que era só teu



É o nome de uma música de Dead Combo. E a imagem em cima é Lisboa. A minha eterna cidade. Nasci aqui. Moro aqui. Trabalho aqui. Ali em cima é o Castelo. Entre o Castelo e onde estou existe a cidade com prédios pequeninos. Bairros antigos. Onde existem tascas, cafés e casas de fado. Casas bafientas onde se come caldo verde e vinho tinto à pressão e se poderia ouvir Dead Combo. Eles só poderiam existir aqui. Como eu. Lisboa, esse olhar que me deitas, só pode ser teu. Nasci aqui. Não controlei esse facto. No resto, controlo. Quero sair para outra cidade. Sabemos qual. Mas por cá continuo. Demoro 20 minutos a chegar a casa. Vou de bicicleta pela calçada e pelo alcatrão. Contorno os prédios ali da imagem. Por entre esses prédios bebo também café. E todos os dias vejo Lisboa da minha janela.

Lista para fazer e para riscar






É andar pelas margens do Sena com uma garrafa de vinho tinto. Entrar num cinema e ver clássicos antigos a preto e branco. Saltar para o mar de mãos dadas de uma rocha escura num dia de Verão com a pele bronzeada. Ter em casa um gato que dorme aos pés da cama ao mesmo tempo que nós. Ligar o rádio e ouvir uma música sem letra. Deitados no sofá de pernas entrelaçadas a ler um livro e apenas para ler em voz alta algumas passagens, “ouve isto”. Fazer chá para um e cappuccino para o outro. Dormir entre beijinhos quando a chuva abraça o chão lá fora. Fazer um picnic em Serralves entre arte do gosto de cada um. Deitarmo-nos na areia na praia no Inverno. Esperar pelas malas no aeroporto quando todos se movem mais rápido que nós. Ver o MoMa tantas vezes até decorar quantos lances de escada tem. Ir a Sintra num dia de nevoeiro. Ver um concerto na casa de cultura numa sala escura onde a guitarra é actriz. Percorrer as estradas de Itália com uma banda sonora escolhida e guiarmos de mãos dadas.

Há dias em que se torna difícil explicar-me


 
Saio pouco. Principalmente para ir ao café e voltar. Vou beber vinho tinto em tascas bafientas grande parte das vezes. Um livro vai comigo para a praia. Para as alturas de repouso quando as ondas já me castigaram o corpo suficientemente. Vejo os filmes de luzes apagadas e sempre de noite ou na madrugada. No iphone tenho um atalho rápido para uma aplicação de fotografia. 

quarta-feira, 13 de março de 2013

Amour na madrugada


A casa estava em silêncio quando comecei a ver. Levantei-me de noite porque tinha insónias. O Gato preto veio comigo para a sala e deitou-se no meu colo. Não acendi as luzes. Há qualquer coisa de estranhamente familiar que o tempo faz a uma casa. É como um novo braço. Ou uma perna. Se fechar os olhos sei onde estão os meus dedos. Se fechar os olhos sei onde está a porta. Sem precisar de contar os passos. Fiz uma pausa a meio. O Gato preto resmungou. Fui à cozinha fazer um cappuccino e vi o resto do filme. Não quis crescer e nunca quis ser adulto. A não ser pelas miúdas. E valeu a pena por ela que continuava a dormir no quarto. No final do filme ainda sem sono liguei uma luz e li umas folhas do livro que tinha em cima da mesa. Mas levantei-me e fui ao quarto. Ouvi-lhe a respiração mansinha. Sem ela notar passei-lhe a mão pelo rosto. A pele estava quente do sonho. Um dia vai perder a elasticidade. Quero ver. Quero voltar a passar a mão pelo rosto. Voltei à cozinha e fiz um prato de cereais com leite e sentei-me à mesa sozinho.

Um dia vou ser velho. Velho a sério. E não sei o que vou levar da vida. Vou levar memórias. Espero que as consiga levar. Vou ver os meus pais cada vez ficarem mais velhinhos. Eu tenho de vida quase tanto eles têm de estar juntos. Ainda andam na rua de mãos dadas. Mesmo depois de se chatearem. São diferentes. Um do outro. E fizeram dois filhos diferentes. Mas da vida que lhes conheço ensinaram-me as duas maiores lições. A primeira é que uma vida em conjunto custa. A segunda é que a bondade é uma coisa difícil por vezes. Se uma vida em conjunto testemunho. A bondade presenciei. Os meus pais estiveram quase a adoptar uma menina cuja mãe estava numa situação muito difícil. Sentaram-me a mim e ao meu irmão e contaram-nos. Havia esta forte possibilidade de termos uma irmã. Mas só se tudo falhar! E o que pode falhar, mãe? Perguntei. Ajudar a senhora. Durante meses os meus pais com os seus salários pagavam a comida daquela mãe e daquela menina. Pagavam as contas da casa. A minha mãe ligava para toda a gente que conhecia para procurar um trabalho para a senhora. O meu pai fazia o mesmo. O meu pai arranjou as prateleiras da casa da senhora. A menina ia lá para casa ao fim-de-semana quando a senhora tinha de ir fazer limpezas. Até que um dia tudo terminou. A senhora estava bem. Arranjou um empregado. Arranjou um namorado que gostava da menina. Hoje continuam a envelhecer ao lado um do outro. Tal como os meus pais. Eles, os meus pais, podem não mudar o mundo, mas ajudaram a ser um bocadinho melhor.

Nunca vou conseguir estar à altura dos meus pais.

Acabei os cereais e voltei para a cama.  Antes de adormecer pensei que gostava de escrever a história deles. Apenas se eu fosse capaz...

Vem de Espanha

Eu tenho Mykonos




Sou atraído para a ilha como K em Sputnik Meu Amor. Ou Como Yves para Marraquexe. Um é fruto da ficção e do sonho. O outro é real e o criador de sonhos. Aqui estamos longe de tudo. Tudo é branco e as águas são quentes.  Faz três anos em que aterrei num aeroporto pequenino. Onde cabras e ovelhas se passeavam nas pistas. Percorri ruas apertadas. Lambretas indiferentes ao limite de velocidade. Velhos de barba contemplavam quem chegava. Na varanda onde fiquei quis ficar. Adeus cidades, vou mudar-me, mudei de ideias.

Não sei se Murakami alguma vez visitou as ilhas gregas quando escreveu sobre elas. Onde Sumire se perdeu. Sei que Yves tinha em Marraquexe o sítio onde ia buscar inspiração. E em ambos os casos faz sentido. Talvez os meus ténis não tenham lugar em Mykonos. Sim sandálias e alpercatas. Teria uma longa barba como os velhos da illha. De todas as minha viagens era ali que gostava de escrever. Talvez porque tenha sido o lugar que mais me surpreendeu. Onde quis ficar mas que não tenha nada a ver comigo. Digo-lhe que gostava de viver em Mykonos e ela não me leva a sério. Diz que me iria fartar. Não tenho as estradas para a bicicleta. E não tenho nada que me faça ser eu. Mas eu acho que é isso mesmo.

Não é facil

“Writing a Long Novel Is Like Survival Training.”

Haruki Murakami

terça-feira, 12 de março de 2013

Note to self



I miss you terribly...





.... New York

Take my picture


 
 
 
A importância dos flashes nas ruas têm o seu contributo para compreender o mundo onde vivemos. A par dos livros, das revistas e dos sites existem as fotografias. Há uns anos li uma entrevista no New York Times a um historiador. Ele dizia que a sua tarefa era difícil. Só compreendemos o presente e podemos tentar adivinhar o futuro se olharmos para o passado. Mas ele interpretava de forma diferente este dogma. O presente, que será passado, é demasiado complexo. Tem excesso de informação. E olhar para os costume designers de hoje será um dia como olhar para os bailes em Viena de Áustria. Perceber como as classes privilegiadas viviam. Olhar para Maria Antonieta que se rodeava dos maiores luxos quando França morria à fome. Não me recordo muito mais da entrevista. Apenas esta ideia: o presente tem demasiada informação que tornar-se-á quase impossível escrever a história actual com factualidade num futuro.
Mas volto a Maira Antonieta. Porque no filme de Sofia a realidade presente estava bem retratada no passado. Numa lógia inversa. Não é o passado que nos faz perceber o presente, mas o presente que nos faz perceber o passado. Num mundo em crise uma mala Chanel escandaliza tudo e todos. O sonho materialista é blasfémia. Como era no filme uma Paris, hoje capital do luxo e charme, ser na altura uma cidade com fome. Onde Maria Antonieta comia cupcakes que são imagem contemporânea de uma série americana. O filme retrata de forma subliminar um excesso. Não um excesso de mais, mas um excesso de dois pratos da balança que se esqueceu do fiel.
Street style. É hoje um olhar para os bailes de antes. Naqueles salões dourados. Onde Orgulho e Preconceito mostra que as classes são esbatidas quando a paixão nasce. Mas agora é na rua. Nos jardins. Em todo o lado.


I think your brain is sexy



Uma miúda a ler de costas nuas. Sensualidade numa imagem a preto e branco

segunda-feira, 11 de março de 2013

Estamos longe dos Hamptons



Ou de Montauk. São milhares de quilómetros que nos separam. Ainda que naquele dia fossemos ver o mar. Crespo como a milhares de quilómetros. Golfadas de mar em ondas irregulares. Cortadas e com jeitos. As nuvens anunciavam a tempestade que chegou mais tarde. Não fomos aos Hamptons quando lá estivemos, temos de lá ir na próxima. Combinado. Para ti qualquer desculpa serve para voltares. É verdade. Deixamos o mar nas costas. Entramos no carro para nos aquecermos. Liguei o rádio e carreguei em play, The Cure com "Lullaby". Passeamos com o vidro fechado e a som no interior. O mar na esquerda. Como na esquerda, mas a milhares de quilómetros, os Hamptons. Com as casas em cima da praia. Casas de madeira com as cercas pintadas de branco. Bares onde se bebem licores dourados em copos pequenos. Onde à noite se vestem grossos casacos de lã. Tens saudades? Do quê? De voltares a entrar no mar? Tenho. Para o mês descemos a costa. Combinado. Um beijos nos lábios e voltamos para trás.