quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

No início foram dois livros






A pergunta é muitas vezes formulada e a minha resposta é sempre a mesma. Não muda desde os 10 anos quando li “Mataram a Cotovia”. Foi esse livro o primeiro que condicionou a minha vida. Com esse livro conheci Atticus Finch. Uma personagem fictícia inspirada no pai de quem escreveu o livro. E quis ser Atticus Finch. Quis ser advogado. Fiz toda a escolaridade sempre com essa ideia. Há outros acontecimentos na minha vida que reforçaram essa minha vontade. E achei que estava no lugar certo quando no primeiro ano da faculdade aprendi que a justiça era o objecto do direito (vem nos livros). Mas a realidade mostrou-me uma coisa diferente. Ou os caminhos que escolhemos acabam por nos condicionar o que seguimos. Mas a verdade é que acabei por não me tornar advogado. Mas contínuo com o vício de formação. Não faço juízos de valor iniciais, cada história tem duas versões e cada acção tem por detrás uma qualquer motivação.

Anos mais tarde e livros depois li “Crónicas do Pássaro de Corda”. Não foi o primeiro livro de Murakami que li. Mas este é o que guardo com mais carinho. Quando a quase totalidade dos meus autores preferidos são americanos, este japonês marcou o seu lugar. Porque foi ele, com aquele livro, que marcou os meus sonhos. Soube que queria escrever. Já escrevia, já estava registado no blogspot. Mas com um esforço de memória vou ao arquivo até à altura em que li o livro. E existe um antes e um depois. Existe uma forma de escrever antes e uma outra depois.

O ler é um aspecto muito pessoal. É uma intromissão de quem escreve na vida de quem lê. As palavras não salvam uma vida. Mas podem marcá-la. Um amigo meu disse-me uma vez que ler é como nos falarem baixinho ao ouvido. Mas é também por causa desse meu amigo que raramente discuto livros. Discuto muitas vezes autores. Mas não os livros, não as histórias. Não escolhemos aquilo que nos toca. Podemos compreender e aceitar. E podemos depois analisar. Até que ponto é que o que escrevo tem o facto de ter tido a minha formação nas leis, num ideal de justiça e ter-me perdido num universo criado por um japonês. Pode condicionar a minha forma de escrever e ler. E podem ser duas realidade diferentes. O eu leitor pode ser muito diferente do eu que escreve coisa.

Por vezes penso como tudo seria se não tivesse lido aqueles dois livros. Os meus pais dizem-me que sempre quis ser advogado. Mesmo que hoje não o seja. Sempre soube que gostei de escrever. Primeiro em cadernos de capa preta, depois na web. Para mim é um passatempo. Escrevo onde calha. Chego a casa e ligo o computador e escrevo. Muitas vezes as coisas vêm parar aqui. Outras vezes, apago. Há alguns amigos que sabem que existe este blog. E em conversas perguntam-me se tem um tema. A reposta mais sincera é não. "Escreves sobre o quê, então?". Mesmo que cá venham, mesmo que leiam por vezes perguntam. O que me leva a compreender o porquê da pergunta: "o que o leva a escrever?". Se tentar eu próprio responder a tentativa fica muito longa. Tal como já lava este post.


“(…)a fantasia, a sensibilidade, o espírito crítico desenvolveram-se extraordinariamente graças às fábulas, às lendas, aos mitos(…)”.


Mario Vargas Llosa



1 comentário:

margas disse...

23 não é necessariamente velha! ahahah Eu é que estou sempre a brincar por ser a mais novinha no meu grupo de amigos!;)