sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Barcelona, A Mulher

 
 
 
Há certas fotografias que só podem ser tiradas em certos locais. E se a fotografia for a uma pessoa, essa pessoa só podia pertencer a um certo local. E ele, que mais que fotografias a estilos ou modas, retrata pessoas, sabe-o bem.
Com as suas tatuagens, a preto e branco e com a cabeça rapada, e sem ver a imagem, podíamos pensar que não, não há qualquer laivo de feminino na imagem. Mas é apenas uma engano até se ser a fotografia. E quando sabemos que foi em Barcelona não surpreende. Barcelona, aquela cidade quente e abafada, burguesa quanto bohémia, com bares de tapas em esquinas escuras em Raval. Ou em ruas estreitas no Bairro Gótico. Barcelona é uma mulher. Quente. De pele suave e húmida. De feições fortes e belas. Que contrasta padrões assentes de o que é ou pode ser uma mulher bela. Desafia conceitos de beleza, de tipos de mulher.
Ela bebia o café. O seu primeiro café do dia. E ele, do outro lado, recém acordado ainda com efeitos do jet lag. Com as maneiras e tiques de americano que já viajou muito apercebe-se dela. A sua namorada, parisiense, ajeita o cabelo enquanto força-se também a a cordar. Mas ele mantém os olhos na rapariga de cabelo rapado no outro lado da sala. Com um legeiro toque de joelho alerta a namorada para a jovem do outro lado. Em resposta tem um très belle. sintonizados ele levanta-se e percorre com passos confiantes até onde a jovem está. Habituado a interpelar estranhos, não se deixa de surpreender que ainda existem pessoas que expelem um certo poder que o amedronta. Normalmente pede-lhes para tirar um fotografia e agradece. Não quer saber as suas histórias, o que lhe interessa é aquela imagem. Um nome e por vezes é tudo. Mas aquela jovem, ainda de cabeça baixa para o seu café, parecia ter mais. É um daqueles casos raros. Pede licença para a interromper e quando ela levanta os olhos vê aquelas sobrancelhas finas que ainda tornam toda a imagem mais fascinante. Sim, diz ela num catalão fechado mas simpático. Força e cordialidade numa única palavra. Ele apresenta-se e diz que gostava de lhe tirar uma fotografia, para o seu site. Ela sorri, um sorriso franco, agradece, diz-me muito lisonjeada, mas apenas e só se ficar ali sentada. E ele concorda. A fotografia não leva mais do que dois minutos. Ela sabe a melhor forma de se mostrar e ele sabe bem o que quer. Ela agradece e volta para o seu café. Quando volta à mesa a namorada diz-lhe que a fotografia tem de ser em preto e branco. Sim, concorda ele. E só podia ser tirada aqui, em Barcelona, volta ela a dizer. E ele mais uma vez, concorda.  

2 comentários:

Rafaela Silva disse...

Linda foto! Espanta-me que não hajam mais mulheres a desafiar o conceito formal de beleza e a rapar o cabelo.

E disse...

A foto tem imenso poder, não tem? Por alguma razão, para mim, ele é o melhor.