quinta-feira, 5 de março de 2015

Somos o nosso próprio inferno

Voltei ao Porto esta semana. Fui de Alfa Pendular desta vez. Gosto especialmente quando quase a chegar ao Porto, passamos junto ao mar. E gosto também, quando já de regresso, nada vejo lá fora devido ao escuro. Mas durante a viagem de regresso, gosto também de olhar, mais do que quando vou, quem regressa comigo. E, no banco ao lado, uma senhora de calças pretas justas, cabelo cuidado, Mac em cima do apoio, lia um livro. Lia o Segredo.
 
Não sei que segredo guarda o Segredo. Sempre tive algum desconforto em ler o livro. Algum preconceito para algo que vem de fora para me ensinar o que tenho dentro de mim. E coloquei-me, pelo canto do olho, a observar a senhora. De perfil era bonita. Um nariz pontiagudo. O cabelo, à luz da carruagem, parecia meio aruivado. Talvez pintado, talvez natural. Unhas bem arranjas que seguravam o livro. Uns auscultadores pendurados ligados ao MAC. Que diria o meu avó?
 
O meu avó foi a pessoa com mais confiança que conheci. Uma confiança confundida com arrogância. O meu avô era mais baixo que eu. Mais baixo que o meu pai. Cabelo num corte de aprumo sempre bem arranjado com cera. Sapateiro de profissão. Erudito por vocação. Aprendeu esperanto por si. Entrava sempre direito. Falava com qualquer pessoa sem que a voz lhe tremesse. Colocava o Dr e o tu onde tinha de colocar. Tinha um aperto de mão forte. demasiado forte para mim. Tal como o abraço que me dava quando me recebia. Cheirava bem. Mesmo quando passava o dia na oficina. Cuidava dos calos das mãos, dizia que eram mãos de homens mas à noite tocaria sempre na sua mulher. Talvez fossem conversas um pouco desapropriadas para ter comigo. Mas eu ouvia-o deliciado. Acredita em ti até te provarem que estás mesmo errado, dizia-me. Quando já estava doente, muito doente, vi-o. Tombei, pá, disse-me ele. Eu chorei. E ele, a custo, levantou-se e abraçou-me. Tão fraco aquele abraço. No dia seguinte fui ter com ele novamente. O meu pai estava a sair do quarto. O meu avô aguentou as últimas dores até ao último abraço fraco ao meu pai. O filho.
 

2 comentários:

Lia disse...

Não te consigo dizer o porquê, mas este é um dos teus textos que mais gostei de ler.

Iva Araújo disse...

Ai... a história do teu avô tocou-me de uma forma tão profunda. Não sei que magia dás as palavras mas o texto está lindo.
Obrigada por partilhares connosco.