terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Sei demais para este trabalho



Todos os dias, das nove às cinco, tenho o meu trabalho. Um trabalho que me obriga a andar de fato cinzento. A escolha da cor é propositada. Quando vou a casa dos meus pais folheio os álbuns de fotografias que lá ficaram. Fotografias minhas quando era puto. Menos puto e adolescente com um feitio de merda – há quem diga que o feitio ainda é de merda. E tento lembrar-me como é que imaginava a minha vida profissional dali a uns anos. O dali a uns anos chegaram já aqui há uns anos atrás. Saí da faculdade como mil e quinhentas pessoas. E faz-me lembrar aquelas séries americanas, a faculdade acabou vamos lá começar a sério. E por vezes encontro alguns colegas antigos. Vejo-os dentro dos seus fatos aborrecidos, também cinzentos, e com gravatas com bonequinhos e ares enfadonhos. Longe das calças largas que usavam. Parecem acabados e nada divertidos. Quando subo no elevador olho-me ao espelho e penso se estou velho e acabado. Não tenho nenhum cabelo branco. Um ponto para mim, zero para trabalho. Mantenho um lema: posso ficar mais velho, mas não vou deixar de me rir de mim próprio. Continuo a fazer palhaçadas para o Gato Preto. Talvez é ele um dia que não vai achar piada. A minha mãe percebe-me. Há um ano houve um jantar lá em casa. E ela convidou-me. Eu fui de camisa dentro das calças e camisola a condizer por cima. Mas tinha calçado os New Balance. Não sei se ela me percebe a sério ou se assim fico mais parecido com a imagem que ela vai ter sempre de mim.

4 comentários:

Silvia disse...

If I ever have to wear a pant suit (de saia ainda vá, mas só se tiver o glamour da Chanel... não pensando melhor nem mesmo assim) I might very well consider shooting myself. Não porque não perceba que certos trabalhos assim o obrigam (como o teu obviamente) mas porque acho, que até onde conseguir, vou arranjar sempre uma alternativa formal mas "eu" e porque we already have to give up so much of ourselves as it is.

E disse...

Sabia no que me estava a meter quando entrei para a faculdade. Mas nunca pensamos bem nas consequências. mas quando entrei para a faculdade também queria mudar o mundo...

catarina gouveia azevedo disse...

também queria mudar o mundo quando entrei para a faculdade. mas acabei (quase) por ser derrotada por ele. com a idade, penso ter conseguido impor o meu cunho pessoal nas indumentárias que envergava para o trabalho. para a minha família, no entanto, continuo a usar fato-macaco e tranças com laçarotes :)

E disse...

Não fui derrotado. Abracei a realidade. Ninguém muda o mundo sozinho. Mas tento.