terça-feira, 15 de abril de 2014

Sair de Portugal

Não sou emigrante. Não tenho, de momento, ninguém emigrante na família. Migrantes, tenho. Pessoas que se deslocaram dentro do país. Onde 300 km separam pais e filhos. Avós e netos. Já tive, no entanto, emigrantes. O meu pai, durante a minha infância, foi emigrante intermitente. Saía e entrava no país com espaço de largos meses. Eu, o meu irmão, a minha mãe e o meu pai tivemos para sair várias vezes do país de forma definitiva. O acaso levou a que nunca se concretizasse. Eu próprio nunca saí porque a oportunidade nunca se concretizou.

Sei que custa abandonar um país. Uma vida. Laços de sangue e de amor. Sei, com base numa sensibilidade, pois nunca passei por isso. Nunca fui o que abandonei isto. O meu pai, sempre o meu pai, há quatro anos voltou a sair do país para voltar apenas há um. Mas no meio deste turbilhão nunca vi como fatalismo o mudar de país. Eu próprio gostava de ir. Mas a palavra é gostava. Não o ter de ir. E isso, acredito, faz a diferença. Vários amigos estão algures por esse mundo. Em sítios como Inglaterra, Dinamarca, Angola ou Tailândia. Todos, via facebook e skype, me dizem que estão felizes. Mas todos dizem que custa. Têm saudades deste país com vista mar.

No final desta semana volto a sair do país em lazer. E sempre que me cruzo com pessoas a chegar e a partir me pergunto quantas estão a sair sem saberem quando voltam. Se estão a partir porque querem e gostam ou se tem de ser. Mudar de vida porque queremos é sempre um bom motivo. Mudar porque nos obrigam é solitário. E ainda a semana passada ouvia um actor conhecido dizer na rádio que se dava bem com a solidão. Que todos devemos aprender a estar sozinhos. E eu achei aquilo demasiado hipócrita. Ninguém é feito para estar sozinho. E estar sozinho porque queremos é diferente de estarmos sozinhos porque não temos ninguém. E quem muda porque tem de ser vai, muita vezes, passar a estar sozinho porque não tem ninguém.

2 comentários:

melody disse...

Damn T, tu acertas sempre.
Ontem vi mais uma amiga a sair do pais. Desta vez Brasil... Tem o pai por lá, está há três anos desempregada cá... E porque não sair, dizia-me ela. Mas bolas, é isso mesmo que me custa, ninguém é feito para estar sozinho, e custa ver os nossos a sair. Eu sei que ela não estará sozinha - eu sei. Mas para nós estará sempre 'sozinha' por estar sem nós. E isto de todos os meses ver amigos a saírem do país é uma facada constante no coração. Damn it.

E disse...

Saem todos os dias. ALguns, talvez, voltarão. Outros não. Alguns serão para sempre emigrantes. Outros ficarão a ser os "novos locais" dos sítios para onde foram.

Somos cidadãos do Mundo. Uns mais que outros. Mas nunca deixaremos de ser apenas só naturais de um sítio.